quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Escutemos


Não só na faculdade tenho ouvido (e participado) de debates sobre a questão da voz, de falar de algum lugar. Em alguns casos, caíam no “quem é você pra falar disso”, o que pra mim acaba sendo uma espécie de censura: negro fala de negro; mulher, de mulher; homossexual, de homossexual; e por aí vai. Pra mim, isso atrapalha a compreensão porque, assim, eu não me coloco nunca no lugar do outro e não trabalho tanto o diálogo.

Não sou venezuelano, mas tenho um carinho enorme por esse país que me acolheu (aos trancos e barrancos) por nove meses. Vi caças estadunidenses sobrevoarem território alheio durante manifestações contra o fim da concessão televisiva da RCTV. Vivi porradarias em mercado por causa do último saco de arroz. Vivi, mesmo em “bairro nobre”, caminhão de verdura ser saqueado na porta do mercado. Vivi dar o meu passaporte pra conferir no caixa porque já tinha passado minha cota de arroz da semana. A moça que trabalhou em minha casa vez ou outra subia o morro pra poder voltar não com droga, mas com uma caixa de ovos que custavam aproximadamente 60 reais, era o preço do tráfico. Vivi mercados sem papel higiênico. Eu e minha família fomos a outra cidade comprar leite, levamos todas as 59 caixas do mercado. Nunca me esquecerei desse número. A primeira ordem que recebi na escola foi pra tirar o brinco que era coisa de marica e minha irmã pra tirar o esmalte, pois era coisa de puta. O primeiro aviso que recebi em casa foi pra não usar roupas vermelhas na rua, poderia ser perigoso. Sofri pouco, fui privilegiado, protegido, agraciado, como preferirem. Era uma criança começando a entender um pouco do mundo vivendo um choque de realidade brutal. Não havia liberdade plena. A camisa que eu usasse era símbolo político e eu poderia sofrer agressão por isso, era um risco. A intolerância era alarmante.

Esse relato fez nove anos nas Olimpíadas do Rio 2016 e já não me parece tão distante. Sair de verde e amarelo na rua não contempla mais todos os cidadãos brasileiros, um dos símbolos da união foi apossado por um grupo que não une. Sair de vermelho na rua também é mal visto, para uns é alienação de um plano político que não deu certo. No fim das contas, eu percebo, então, que a democracia, o estado de direitos e deveres que tem por pressuposto a liberdade (até certo ponto), vem sendo corroída. O debate não escuta e, por isso, não avança. Sem diálogo não há acordo. Nenhum político é o ideal, e nunca será. Toda unanimidade é burra. Enquanto houver duas opiniões diferentes, não haverá unidade. É aí que entra o respeito e a escuta. Seja em nossos candidatos a prefeito (que me recuso a mencionar alguns, pois é de IBOPE que eles precisam), seja na corrida presidencial estadunidense (em que um corre pra trás, a outra caminha), seja com nosso presidente golpista (que assistiu a Tempos Modernos de Chaplin e se sentiu inspirado pra nossa educação, indo na contramão de todos os avanços que o mundo aponta), onde estão os ouvidos? O excesso de ordem nos trata como um rebanho que não escolhe o que quer comer, deve apenas engordar para o abate. A opinião pessoal vem consumindo a liberdade individual. Não quer comer legumes? Não coma. Não quer rezar, não reze. Não quer beber, não beba. Não quer transar, não transe. Não quer casar, não case. Não quer ter, não tenha. Mas se eu quiser, não venha me dizer que eu não posso.


Vou votar pelo direito de sair de verde, amarelo, vermelho, arco-íris, marrom, sem camisa, regata ou listrado sem julgamento. Você não precisa concordar comigo, afinal, a democracia se trata disso, poder discordar sem medo. Posso só pedir um favor? Veja se seu candidato promete qualquer coisa tolhendo a liberdade de alguém. Se fizer isso, talvez ele não seja tão democrático assim, e te garanto que, empossado, ele não vai fazer questão sequer de maquiar as políticas públicas. Então pensa, porque eu vou continuar pensando até a hora de apertar o botão verde e ouvir o barulhinho. O plano da Venezuela começou com uma ideia de libertação e olha no que foi parar... Escutemos.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Nosso mirante

Do nosso mirante eu vejo a gente,
nosso futuro distante, lá longe, pequenininho,
e o horizonte que dessa vez se confunde com mar.

Olho de cima da laje pra minha comunidade.
Quanto menos concreto, mais em casa me sinto.
Mas a laje não é pra todo dia
e o de hoje está nublado feito a minha cabeça.
Nem parece que esse céu já esteve aquele rosa das suas bochechas de quando eu contava uma piada sem graça qualquer.

Será que sente saudade?
Será que ainda tem meus presentes?

Eu ontem ganhei uma flor de dobradura, sabia?
Dei de presente pra mim. Há tanto tempo eu não ganhava nada.
As flores insistem em nós seguir e, caso faltem, tem um parque inteiro do outro lado da rua.

A vista daqui de cima é tão calma.
A voz falhada do segurança que usa sempre a mesma roupa pareceria um grito se ele não fosse mais um xamã do parque.

Esse silêncio é tão bom.
Posso te ouvir como se estivesse aqui.
Mas assim que paro pra responder olho pro lado
e não tem um sorriso me olhando de volta.
Pensei em dormir no meio dos troncos
só pra te visitar por quinze minutos.

Mesmo sozinho me sinto bem acompanhado.
(Deveria escrever sozão, sou uma miniatura daqui.)
Hoje vou abraçar uma árvore
(e acho que indiretamente isso significa um abraço no segurança).

Faltou só a água cair da cachoeira.
Faltaram os patos da lagoa que levam esse nome.

As folhas caídas dançam o silêncio.

As ondinhas da lagoa refletem aquele céu que eu não quero ver, então é melhor olhar pra dentro mesmo.
Só não é agradável assim...

Dessa vez é sozinho mesmo.
Não tem nem uma criança linda,
cujo sorriso fala mais que uma pilha de livro,
pra gente fingir que é nossa.
Mas talvez seja isso mesmo,
fingimos.
Atuamos tão bem.
Atuávamos.
Mas a realidade passou.
Não, na verdade.
A realidade é sempre.
A criança não era nossa,
era emprestada,
e era também cedo pra pensar em qualquer coisa que não nós dois.
Continua meio tarde pra tudo...

Comecei a escrever tardiamente,
a chuva veio me visitar,
mas tem umas árvores me pedindo pra pelo menos terminar isso aqui.

Sabe que eu não quero... Nada que leva teu nome pode ter final.

Então faço das memórias meu presente,
era perfeito,
agora, pretérito.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

eu sou um peixe bem atrapado

de um lado essa mancha lambe a família
lambe a passagem
lambe minha sombra
    minha sede
    minha vontade de nadar
a lama lambe a língua o meu lar
eu desço o rio como tu rola a ladeira
aqui varre-se o chão com lama
 bebe-se água com choro
 bebe-se chuva com ácido
a lama me expulsa de casa
meus velhos não suportaram
o esforço das barbatanas
meus velhos nem olhos podiam fechar 
tivessem sido fisgados
os girinos não saíram das poças
eu sou um peixe solitário
que nada numa multidão de fuga
nada pra nada
nada pro nada
o espelho rebate o medo do cardume misto
da insegurança
da fome que nos causou
da fome que vai causar
os pássaros estão sem espelho
as margens são meu labirinto que não bifurca
   que não desemboca
   que não tem começo
sou um maratonista sem linha de chegada
fugindo de um rio seco 
  de um rio azedo 
  de um rio morto

do outro na foz quisera eu ter fechado os olhos 
o sal deve arder à vista tanto quanto arde a dor
o ódio a raiva a fome a pena a tristeza e a sede
nunca morri sem ter sido pescado e acabo aqui
com o infinito do mar que nunca quis conhecer
morrendo na praia

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Se virasse notícia

            Barzinho pra gringo. Essa é a minha sugestão de nome para o lugar que fui no fim de semana. Não que precise, de fato, haver essa segregação, as notícias que li de manhã me deixaram mais esperançoso em relação à porosidade das fronteiras. Acho que, aos poucos, caminhamos todos em ciclo. Círculo não, porque não me lembro de termos retornado. Quando andamos para trás é para pior, me parece. Não deu tempo do menininho da praia testemunhar uma melhora, mas a carona para um novo rumo está chegando.

            Eu espero que esteja. As matérias retratam um mundo presente, mas distante e me levam a perguntar até que ponto tenho participação nele (ou nisso). Me levam a perguntar qual a utilidade da minha cidadania, do meu ser único e não especial, apesar de a minha mãe me dizer que sou. Me jogam na cara a minha inutilidade, a minha irrelevância, o meu desconhecimento. Mas, talvez, seja isso mesmo que queiram evidenciar sem tornar explícito. Talvez queiram deixar registrada a comodidade, o não saber e a preguiça, afinal, esses retratos são tão distantes.

            Nosso mundo começa onde pisamos e pisei nas escadas do boteco para gringo no famoso bairro da boemia carioca. Não pretendo, no entanto, mudar aquele lugar. Acho que até merece umas melhorias técnicas para que a música não acabe no meio do evento outra vez, para que a saída e o pagamento sejam melhor instruídos e para que o cartão de registro de consumo não desapareça do sistema.

            O meu cartão estava zerado. O mal-humorado atendente disse que eu poderia sair, mas fui sincero e disse a ele exatamente o que havia consumido. Pelo menos ainda tem uma pessoa honesta. Essa frase ecoou na minha cabeça enquanto eu corrigia a conta, que dessa vez deu mais cara. Depois de conseguir pagar, saí dali. Alguns dos amigos do lado de fora alternavam entre considerações como idiota e otário, era muito mais cômodo e inteligente sair sem pagar e, numa coisa tenho que concordar, eles mereciam. Ainda assim, não achei justo fazê-lo. A obrigação em se dar bem tem me irritado bastante. Se tornou um problema crônico que parte de nós e reflete em nossas representações por aí. Mas, a culpa nos outros é mais fácil, dá menos trabalho e nos tira da posição de pensar sobre nossas próprias decisões e o impacto que elas causam no mundo – aqui, no conceito de lugar que piso.

            Aquela não era hora de refletir. Logo, o próximo bar foi a decisão mais importante da noite. Solucionado esse problema, fizemos o que há de se fazer nesse tipo de lugar. No meu caso, serviço completo por incluir os cigarros. Não sei quanto tempo depois, fui o último resistente e achei melhor ir embora. Sempre me disseram que andar sozinho na Lapa à noite é perigoso, então, genialmente, parei não muito perto de um carro de polícia para pegar meu cigarro. Achei que seria mais tranquilo abrir minha bolsa onde esses possíveis ladrões evitariam passar. Quando ia acender a chama, fui abordado pelo motorista da viatura.

            Mãos na parede. Bolsa esvaziada sobre o porta-malas. Conversa ostensiva entre eles e um jeito meio leviano de agir. Procuraram por maconha. Acho que queriam mesmo era fumar um pouco, tinham uma sede nessa palavra que normalmente só vem depois que se fuma. Não acharam. Dez segundos pra recolher e vazar. Recolhi com uma paciência ímpar e sem pressa nenhuma. Retomei meus pertences item por item, exceto três que os policiais gostaram e não me devolveram. Dei boa noite, dois passos, acendi o cigarro e continuei andando.

            Um pedinte me parou e brinquei que já havia ajudado os necessitados bem na outra esquina. Consegui alguns centavos que dei a ele e a noite acabou assim. Encontrei uma bolsa linda no lixo, mas não a peguei. Sou burro por ser honesto. A PM não anda mais que cinco metros para longe do carro. O roubo continua sendo feito com cartão de débito. A perspectiva de melhora é interpelada por uniformes.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Tríade passageira

Maioridade. Vestibular. Relacionamentos. Essa tríade comumente assola a cabeça de jovens estudantes, que, geralmente, buscam uma maneira efetiva de equalizá-la. O grande problema se exibe quando, no lugar da redação impessoal, cada um deles tem uma voz ativa em primeira pessoa.

Será que é possível ser tão generalista e tão intimista ao mesmo tempo? Para mim, sabendo encaixar-se bem nos espaços entre as palavras, sim. Vivemos em um ambiente de risco em que o espaço entre o ponto e o próximo caractere pode, sim, ser um refúgio (assim como os abraços). As carreiras mais reconhecidas são as de maiores riscos. Nessa lógica, os praticantes de esportes radicais se destacariam, mas falo, aqui, dos riscos de decisões.

É isso! Acima de tudo, maioridade, vestibular e relacionamentos são momentos de decisões importantes. É preciso decidir a lista de convidados e o lugar adequado para a festa dos dezoitão. É importante definir uma carreira promissora e que tenha conexão com seus próprios gostos. É necessário abdicar um pouco de si em prol de um coletivo. É um grande conjunto que exige fidelidade, e não uso fidelidade no sentido conservador. É bom quando conseguimos tomar tantas decisões (de risco) sendo fiéis a nós mesmos. Mas, de novo, falo de um coletivo para tantas escolhas pessoais.

Para os leitores que se enquadram na descrição do começo, aviso logo: relacionamento não é necessariamente uma relação amorosa a dois. Se você se identificou, pense na relação que tem com as pessoas com quem divide lar, pense na relação professor-aluno, na relação aluno-aluno, na sua relação consigo mesmo, e, por que não, numa possível relação de afeto mais íntimo? Você tem sido fiel a si mesmo? Tem sido fiel às suas decisões?

Tem conseguido fazer decisões? Já decidiu o que vai almoçar hoje? Imagina só abandonar o uniforme escolar, qual roupa colocar? Será que eu vou ler até o final? Se procura respostas, já pode parar a leitura e ir para outra atividade.

São meras questões de escolha com consequências, desdobramentos e riscos elevados, pelo menos para os que estávamos acostumados. Eu escolhi ver a maioridade, o vestibular e os relacionamentos como ritos de passagem. Depois da primeira vez, fica tudo tão corriqueiro.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Outra missiva perdida

            Achei nessa semana uma carta de Vinicius para Tom. Já havia lido um trecho antes, mas dessa vez a escutei narrada pelo próprio remetente. Escutei-a como se fosse de Vinicius diretamente a mim.
            Lembrei-me de tantos outros dizeres que meu amado Vininha proferiu. Não recordo-me exatamente das palavras, mas posso dizer que uma das mensagens consistia em dizer que um bom poeta era aquele apaixonado. E não só pela poesia.
Quem melhor do que ele para falar sobre isso depois de nove casamentos?
Penso vez ou outra no que virara o oitavo senão mais um conjunto de palavras bonitas bem organizadas. Ou então nem tão bonitas assim, pelo menos não tomando-as isoladamente.
Ouso comparar-me a ele. Não como poeta, como amante (de qualquer coisa).
Ah... o gostinho de ser amante. O gostinho do perigoso, do incerto – o inseguro. É assim que nascem maior parte das relações a dois que conheço (alguns casos três ou mais). Ah... o gostinho da paciência, enorme exercício praticado como se fosse para as Olimpíadas no dia seguinte. Ah... o gostinho de Vinicius, os meus próprios gostos e o gosto de outra pessoa.
Tenho pensado que, nesses gostos, o sabor que mais se destaca é o de suor – sentido figurado, é claro. Mas que cansaço que dá essa brincadeira toda. Imagino Vina como se sentia, certamente passara por isso mais que nove vezes. Nove foram as que não só devem ter valido o esforço como também foram à exaustão.
E eu cá pensando em cada uma (e cada um, por que não?). Cada um de mim que se estafou. Cada um dos outros que por tudo passam. Cada um dos eu-líricos que choram palavras e sorriem poemas. Cada um dos Vinicius – no plural.
Como poderia pertencer a um só sendo, não só ele, mas todos os homens (incluem-se as mulheres), plural? Necessitava ser de Moraes. Continuo buscando em meu nome um pequeno s que seja, uma desinência qualquer.
Não achei. Será que é esse o motivo de tanta busca?
Não espero encontrar no outro aquilo que não tenho em mim. Só encontro aquilo que procuro e só procuro aquilo que perdi. Ora, se nunca perdi o que não tive o que procuro encontrar?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Há Prós e Contras

            Logia. Usei essa palavra outro dia. Sentia uma saudade dela como sentia de umas outras, que até hoje não sei o nome.

            Mas a de hoje eu sei.

         Saí dos ônibus. Não totalmente, faço uma visita de vez em quando. E assim aquela triLogia cresceu... A de hoje parou na rua me pedindo informação.

E pela primeira vez eu soube um nome.

As outras páginas recheadas de imaginação, e dessa vez era ela quem contava a própria história. Não precisei inventar a pessoa do lado. Ela veio.

Vieram ela e poucas mais − poucos também; enquanto andava na rua sozinho. Mas tratei de estar acompanhado.

A bela-moça perdida foi guiada. Gente boa ela.

Foi dessa vez que eu percebi que pouco me abastecia. Pela segunda vez, na realidade. Por mais que pequenas coisas que comovam, pela primeira, chegou a mim dessa forma distinta. É a tal da referência nominal.

Mas há prós e contras. Pensava há um certo tempo nas maneiras de se explicar, acabaram fazendo isso por mim. (Benditas coincidências.). Fiz hoje parte do genuíno, por denominação prévia. O apego me fazia criar mil e três possibilidades e suas respectivas derivações.

E mesmo assim eu me apegava. E me colocava no meio de situações que só existiam por meio segundo dentro da minha cabeça, apenas. Só que sabemos todos como isso funciona. E mesmo assim a gente mergulha. Não só por acharmos que daquela vez pode ser diferente, mas só por sabermos que de alguma forma aquilo pode ser alguma coisa.

A gente tem vida de curioso.

Acontece então que a gente anda reto, nem que seja somente o caminho de ida. Caminhei o suficiente para guardar os fones de ouvido e olhar um pouco menos para o trajeto. Na minha primeira parada mal observei o rumo que tinha tomado, só cheguei ao destino um tempo mais tarde.

Só que tenho vida de curioso, e parei para olhar o percurso dos outros.


02/02/2015

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Bom Dia


Aqueles que me conhecem sabem o quanto eu penso sobre o sonhar. Parace até meio antitético pensar algo que acontece e que não tem muita explicação, mas essas coisas inexplicáveis são as que fazem surgir em mim os maiores turbilhões de curiosidade – é óbvio, elas quase sempre não podem ser explicadas.
Depois do sonho de hoje acordei com aquela inquietude que a mim soa quase como cotidiana, apesar disso ainda percebo que a de hoje não me vem tão corriqueiramente. É isso, há algo de especial na confusão que acordou comigo esta manhã.
Os sonhos pareciam tão organizados...
03/10/2014

(C.C.)

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

É Para O Sorriso Que Me Volto

Eu estava louco para fazer uma poesia. Não consigo. Pensar em rimas, métricas e ainda por cima contar a história que pretendo está difícil.

Sem grandes pretensões. Só sorrisos me valiam. Não os tive. Discurso como um derrotado em algo que mal tentei. Este não é meu caminho, é para o sorriso que me volto. E em teu sorriso que me perco. Falo tudo e esvazio a cabeça feliz, sem perceber (ou me lembrar) que a mensagem também depende de quem a escuta.

A frase que mais me tem valido ultimamente é uma que minha amiga e irmã me apresentou: “Desista. Mas desista aos poucos para dar tempo de não desistir.”, do Eu Me Chamo Antônio”. É nisso que tenho me apoiado. E, como um difusor do riso, me ausento – muitas vezes até de mim mesmo.

Tive, por esses dias, a famosa vontade de matar o mensageiro. Não é justo, sobretudo ao pensar nisso como um gesto de cuidado. Será que o recado é de tudo ruim?

Meu cérebro constrói o pior cenário possível. Meus sonhos, a realização bela e perfeita. Meu polegar esquerdo apenas dá suporte para qualquer decisão tomada.

Tomei algumas. As imediatas já executadas, outras tantas se metamorfoseiam a cada recalcular.

Talvez não valha a pena pensar nisso, é para o sorriso que me volto e isso tende a trazer um semblante sério e preocupado; por horas beirando a tristeza.

E me esvazio. E me esvazio das palavras, das fotos, dos diálogos, até mesmo dos solitários. Mas, não desisto.

É para o sorriso que me volto.
16/09/2014

(C.C.)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Está Claro!

Não entendo muito de futebol. Na verdade, até entendo, não domino a parte dos times, escalações, os novos ícones do futebol brasileiro, os nomes gringos. Esse pedaço é que não sei.

Não entendo muito de muita coisa. Acho que até que não entendo muito de mim – faz sentido um ser ter devaneios e correr para escrevê-los?

Não entendo muito do nós. Tenho a sensação de que cada vez mais faltam nós ao nós. A dureza contemporânea ultimamente tem se mostrado mais próxima à noz.

Sem entendermos nada, buscamos criar nossas certezas, e o pior, ou melhor, ou neutro, tentar repassá-las como as verdadeiras. Até mesmo a certeza de que não se tem razão.

Que a chuva faça alguma coisa!

Vai que isso é mesmo apenas um rito de passagem... eu não aprendi a coreografia e tem sido tão divertido inventar uma nova dança a cada dia que eu temo ter que aprender essa tal de corretude, para não dizer co-retidão.

Deve ser importante investirmos em nós mesmos. Pessoalmente, sou adepto dessa linhagem. Mas outra sensação toma conta de mim, vejo bastante o autoinvestimento transformar-se em autopromoção. Por quê? Mais uma vez, não que isso esteja errado, não sei. No entanto, é isso realmente o que nos satisfaz?

Tenho buscado guiar-me pelo caminho da liberdade, não de forma hedonística, mas de autoconhecimento. Não deixar de possuir e exercer meus hábitos e gostos por conta do julgamento alheio ou de “pega mal não sei onde”. Quando censurei-me “pegou mal” não estar satisfeito comigo mesmo, a descomunhão mente-corpo, espírito, sei lá.

Vivo recentemente casos semelhantes, em que me são oferecidas alternativas: a “segura” ou a “pessoal”. Adivinhem qual eu tenho tomado!

– E daí? Ninguém me perguntou nada. (–) Está claro?
05/09/2014 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Pequenas Coisas Me Comovem


Vejo no dia a dia tanta reclamação. Não que elas estejam erradas, mas... não me considero tão desesperançoso do mundo como maior parte dos adultos. Minha alma é infantil, e como as crianças (e Rousseau) acredito na bondade do ser humano. Reconheço que chovem "espertos" por aí, só que experimenta: deixa alguma coisa sua na mesa de um bar, sai e volta meia hora depois. Se levaram, umas oitenta pessoas boas passaram antes e com a consciência de que não lhes pertencia, não tocaram naquele objeto.

Sempre cuidei bem das minhas coisas, mas não sou exatamente apegado ao material. Se tenho, quero bem conservado. Se não, tanto faz.

Um tempo atrás o vendedor de churros, que me via todo dia no ponto de ônibus, passou a vender e eu só pagava na sexta-feira. Essa semana relembrei com um amigo como emprestar. Um desconhecido pediu seu violão emprestado. Por que não? Hoje a moça da banca me deu um voto de confiança. Não tinha dois reais trocados e não valia, para ela, trocar cinquenta. A Ana, da banca que fica em frente à farmácia em Botafogo, me espera quando eu puder voltar para dar seus dois reais. Antes dela, um mendigo orientou-me pelas ruas semelhantes. Nunca vi alguém tão cuidadoso com um estranho. Aquele é um homem rico, apesar de acender um cigarro na ponta do outro por não ter os dois reais que eu tinha para comprar um isqueiro na banca da Ana.

A bondade contagia. Digitei esse texto no celular, voltando, no ônibus. A meu lado sentou-se uma mulher com criança de colo dormindo. O ônibus não estava muito cheio, ainda assim me ofereci para trocar de lugar a fim de que a pequenina pudesse se deitar com mais conforto.

Foi só uma direção, só dois reais, mas coisas pequenas são maiores que as grandes. Para mim um sorriso vale mais que um discurso.


29/08/2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Vai, Brasil!

É algum tipo de crime não gostar de futebol? A Copa pouco me incomoda, mas comecei a perceber que até os blogs só falam disso, até mesmo blogs de moda têm falado da Copa de um jeito ou de outro.
            Eu não gosto de futebol e eu não gosto de carnaval, mas não é difícil me agradar com os dois, basta estar animado. Mesmo não sem gostar, se a alegria estiver reinando, tendo a buscar o lado bom da coisa. Foi assim até com a Copa.
            Eu não vejo o Brasil como um país muito nacionalista e, diferentemente da maioria, não vejo isso como um defeito propriamente dito. O país cavou um desgosto popular e eu não estou falando de doze anos de PT. As reclamações são mais profundas, maior parte dos que me leem não estão nos grupos de risco e chamam o Bolsa-Família de Bolsa-Esmola.
Triste é ver um povo tão desunido que o único motivo que leva-o a vibrar em mesma sintonia é um evento de quatro em quatro anos com onze jogadores em campo cantando o hino e ostentando no peito o escudo da seleção. Jogadores que tornam-se equivocadamente responsáveis por um peso e uma carga que não corresponde a eles. O dever deles é jogar futebol e se possível ganhar o jogo. O dever deles não é unir uma nação em meio a algum problema político ou qualquer outro tipo de desagrado comum.
Mas o brasileiro é preguiçoso. Votar é muito chato e as opções são péssimas. Muito mais fácil jogar uma carga sobre os onze que nós nem sequer conhecemos e então a paz reina por quiçá uns seis meses. E depois?
O jornal que chega a minha casa desde o início da Copa só apresenta manchetes ligadas ao evento. – Eu não fui convidado. – Lembra-me as manchetes do Carnaval, dos blocos cheios, do lixo na rua etc.
Torço, sim, pelo Brasil na Copa e pela primeira vez na vida consegui me emocionar com um jogo de futebol. Novamente com a mania dos brasileiros de imputar culpa e responsabilidade sobre alguém. O nome das vezes foi Júlio César, agora, positivamente.
É estranho também ir assistir a jogos em locais públicos. Vejo pessoas chorando, gritos emocionados, apostas, e quando a bola sai pela lateral eu tomo um gole do que estiver bebendo, quando o Brasil toma um gol tomo outro, quando o Brasil faz um gol abro um sorriso meio amarelo (já que nada na minha roupa é verde e amarelo), sacudo a cabeça e tomo outro gole.
Depois disso, eu penso (ou tento): com a taça em casa, o que isso interfere na minha vida? Copa pra quê? Nada, não sei. Mas está tendo e com muitos feriados. Vai, Brasil!