quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Escutemos


Não só na faculdade tenho ouvido (e participado) de debates sobre a questão da voz, de falar de algum lugar. Em alguns casos, caíam no “quem é você pra falar disso”, o que pra mim acaba sendo uma espécie de censura: negro fala de negro; mulher, de mulher; homossexual, de homossexual; e por aí vai. Pra mim, isso atrapalha a compreensão porque, assim, eu não me coloco nunca no lugar do outro e não trabalho tanto o diálogo.

Não sou venezuelano, mas tenho um carinho enorme por esse país que me acolheu (aos trancos e barrancos) por nove meses. Vi caças estadunidenses sobrevoarem território alheio durante manifestações contra o fim da concessão televisiva da RCTV. Vivi porradarias em mercado por causa do último saco de arroz. Vivi, mesmo em “bairro nobre”, caminhão de verdura ser saqueado na porta do mercado. Vivi dar o meu passaporte pra conferir no caixa porque já tinha passado minha cota de arroz da semana. A moça que trabalhou em minha casa vez ou outra subia o morro pra poder voltar não com droga, mas com uma caixa de ovos que custavam aproximadamente 60 reais, era o preço do tráfico. Vivi mercados sem papel higiênico. Eu e minha família fomos a outra cidade comprar leite, levamos todas as 59 caixas do mercado. Nunca me esquecerei desse número. A primeira ordem que recebi na escola foi pra tirar o brinco que era coisa de marica e minha irmã pra tirar o esmalte, pois era coisa de puta. O primeiro aviso que recebi em casa foi pra não usar roupas vermelhas na rua, poderia ser perigoso. Sofri pouco, fui privilegiado, protegido, agraciado, como preferirem. Era uma criança começando a entender um pouco do mundo vivendo um choque de realidade brutal. Não havia liberdade plena. A camisa que eu usasse era símbolo político e eu poderia sofrer agressão por isso, era um risco. A intolerância era alarmante.

Esse relato fez nove anos nas Olimpíadas do Rio 2016 e já não me parece tão distante. Sair de verde e amarelo na rua não contempla mais todos os cidadãos brasileiros, um dos símbolos da união foi apossado por um grupo que não une. Sair de vermelho na rua também é mal visto, para uns é alienação de um plano político que não deu certo. No fim das contas, eu percebo, então, que a democracia, o estado de direitos e deveres que tem por pressuposto a liberdade (até certo ponto), vem sendo corroída. O debate não escuta e, por isso, não avança. Sem diálogo não há acordo. Nenhum político é o ideal, e nunca será. Toda unanimidade é burra. Enquanto houver duas opiniões diferentes, não haverá unidade. É aí que entra o respeito e a escuta. Seja em nossos candidatos a prefeito (que me recuso a mencionar alguns, pois é de IBOPE que eles precisam), seja na corrida presidencial estadunidense (em que um corre pra trás, a outra caminha), seja com nosso presidente golpista (que assistiu a Tempos Modernos de Chaplin e se sentiu inspirado pra nossa educação, indo na contramão de todos os avanços que o mundo aponta), onde estão os ouvidos? O excesso de ordem nos trata como um rebanho que não escolhe o que quer comer, deve apenas engordar para o abate. A opinião pessoal vem consumindo a liberdade individual. Não quer comer legumes? Não coma. Não quer rezar, não reze. Não quer beber, não beba. Não quer transar, não transe. Não quer casar, não case. Não quer ter, não tenha. Mas se eu quiser, não venha me dizer que eu não posso.


Vou votar pelo direito de sair de verde, amarelo, vermelho, arco-íris, marrom, sem camisa, regata ou listrado sem julgamento. Você não precisa concordar comigo, afinal, a democracia se trata disso, poder discordar sem medo. Posso só pedir um favor? Veja se seu candidato promete qualquer coisa tolhendo a liberdade de alguém. Se fizer isso, talvez ele não seja tão democrático assim, e te garanto que, empossado, ele não vai fazer questão sequer de maquiar as políticas públicas. Então pensa, porque eu vou continuar pensando até a hora de apertar o botão verde e ouvir o barulhinho. O plano da Venezuela começou com uma ideia de libertação e olha no que foi parar... Escutemos.