segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Se virasse notícia

            Barzinho pra gringo. Essa é a minha sugestão de nome para o lugar que fui no fim de semana. Não que precise, de fato, haver essa segregação, as notícias que li de manhã me deixaram mais esperançoso em relação à porosidade das fronteiras. Acho que, aos poucos, caminhamos todos em ciclo. Círculo não, porque não me lembro de termos retornado. Quando andamos para trás é para pior, me parece. Não deu tempo do menininho da praia testemunhar uma melhora, mas a carona para um novo rumo está chegando.

            Eu espero que esteja. As matérias retratam um mundo presente, mas distante e me levam a perguntar até que ponto tenho participação nele (ou nisso). Me levam a perguntar qual a utilidade da minha cidadania, do meu ser único e não especial, apesar de a minha mãe me dizer que sou. Me jogam na cara a minha inutilidade, a minha irrelevância, o meu desconhecimento. Mas, talvez, seja isso mesmo que queiram evidenciar sem tornar explícito. Talvez queiram deixar registrada a comodidade, o não saber e a preguiça, afinal, esses retratos são tão distantes.

            Nosso mundo começa onde pisamos e pisei nas escadas do boteco para gringo no famoso bairro da boemia carioca. Não pretendo, no entanto, mudar aquele lugar. Acho que até merece umas melhorias técnicas para que a música não acabe no meio do evento outra vez, para que a saída e o pagamento sejam melhor instruídos e para que o cartão de registro de consumo não desapareça do sistema.

            O meu cartão estava zerado. O mal-humorado atendente disse que eu poderia sair, mas fui sincero e disse a ele exatamente o que havia consumido. Pelo menos ainda tem uma pessoa honesta. Essa frase ecoou na minha cabeça enquanto eu corrigia a conta, que dessa vez deu mais cara. Depois de conseguir pagar, saí dali. Alguns dos amigos do lado de fora alternavam entre considerações como idiota e otário, era muito mais cômodo e inteligente sair sem pagar e, numa coisa tenho que concordar, eles mereciam. Ainda assim, não achei justo fazê-lo. A obrigação em se dar bem tem me irritado bastante. Se tornou um problema crônico que parte de nós e reflete em nossas representações por aí. Mas, a culpa nos outros é mais fácil, dá menos trabalho e nos tira da posição de pensar sobre nossas próprias decisões e o impacto que elas causam no mundo – aqui, no conceito de lugar que piso.

            Aquela não era hora de refletir. Logo, o próximo bar foi a decisão mais importante da noite. Solucionado esse problema, fizemos o que há de se fazer nesse tipo de lugar. No meu caso, serviço completo por incluir os cigarros. Não sei quanto tempo depois, fui o último resistente e achei melhor ir embora. Sempre me disseram que andar sozinho na Lapa à noite é perigoso, então, genialmente, parei não muito perto de um carro de polícia para pegar meu cigarro. Achei que seria mais tranquilo abrir minha bolsa onde esses possíveis ladrões evitariam passar. Quando ia acender a chama, fui abordado pelo motorista da viatura.

            Mãos na parede. Bolsa esvaziada sobre o porta-malas. Conversa ostensiva entre eles e um jeito meio leviano de agir. Procuraram por maconha. Acho que queriam mesmo era fumar um pouco, tinham uma sede nessa palavra que normalmente só vem depois que se fuma. Não acharam. Dez segundos pra recolher e vazar. Recolhi com uma paciência ímpar e sem pressa nenhuma. Retomei meus pertences item por item, exceto três que os policiais gostaram e não me devolveram. Dei boa noite, dois passos, acendi o cigarro e continuei andando.

            Um pedinte me parou e brinquei que já havia ajudado os necessitados bem na outra esquina. Consegui alguns centavos que dei a ele e a noite acabou assim. Encontrei uma bolsa linda no lixo, mas não a peguei. Sou burro por ser honesto. A PM não anda mais que cinco metros para longe do carro. O roubo continua sendo feito com cartão de débito. A perspectiva de melhora é interpelada por uniformes.