Já não me lembro mais da data,
nem da hora. Chuto algo em torno de dez da noite. Rumávamos nossas respectivas
casas, na interseção dos caminhos conversávamos.
Era
sabido por você e por todos meu interesse extra-amigal,
nunca foi segredo. Começado em Fevereiro e terminado em... bem, não sei quando.
“Tudo” começou no churrasco, em que, de fato, perceberam esse algo a mais.
Meses
passaram, suas amigas me diziam: “ela quer, só tenha calma”, outra: “ela quer,
mas precisa de clima”, e calmo eu segui. Por mais que tenha sido avisado
continuei tendo dúvida, nunca soube de verdade se era possível, uma incerteza,
um frio na barriga.
Certo
dia, voltando àquela noite, saíamos de bicicleta, juntos e sozinhos, até então
era comum. Falamos de muitas coisas, mas para nós dois, o principal era aquele
assunto. Estudávamo-nos, aliás, eu a estudava.
Já
na conversa, surge:
−
Tá ficando com alguém? – pergunto.
− Não,
−
pausa – e você? Tá pensando em alguém?
Nisso,
gelo. Não sabia o que dizer, disse a verdade então – não precisava dizer
quem... Jogávamos conversa fora e voltávamos ao ponto principal após cada
momento de descontração. Falamos de namoro, passado, presente e “futuro”; de
expectativas, decepções, desejos e pouco mais.
Eu
já transtornado no desejo de tê-la resolvi então descer de minha bicicleta,
pará-la e dizer-lhe tudo que sentia, com leve intuito da reciprocidade. Comecei
a pensar: “quando ela parar de falar eu faço. Não! Quando ela perguntar eu
respondo com um beijo! Burro, desce na frente dela, segura sua mão, ou não, e
diz logo!”.
Após
longo período de reflexão, disse já parando meu cavalo branco elegante à sua
frente: “Você sabe. Eu to a fim de você há um tempo, não sabia como te dizer,
quero que você deixe de ser assunto de meus textos para fazer parte de mim. Não
quero nada necessariamente sério, vamos deixar rolar...”. Ela sorriu, ainda de
cabeça baixa, me aproximei, nos olhamos lentamente e então eu a beijei, de
pronto ela respondeu. Paramos por um instante, sorrimos sem descolarmos um do
outro, de mãos dadas ficamos e recomeçamos. Tínhamos que voltar para casa,
infelizmente. Pegamos nossas bicicletas e voltamos ao nosso caminho. Na porta
de sua casa mais um beijo, dessa vez rápido, curto, e eu a via descendo a ladeira. ― Isso tudo sonhei.
Nada
aconteceu.
Mais
um longo tempo se passou, cada vez mais próximos um do outro. Isso me
confortava.
Até
que chegou a hora, mas fui arrastado pela onda de um surfista e o grito da oca
fez sinhá me chamar. Logo em meu aniversário ― tragédia.
Desde
então vejo que me evita, me olha ainda, mas não fala. Triste, não? Às vezes
acho até que percebo alguns ciúmes; calma, ela é somente uma amiga.
Sabe,
tento me chegar a você. Creio que abrir o jogo é sempre o melhor, pena que não
me permite. Cansei, triste isso... hoje estou aqui, sentado, escrevendo, me
lembrando do que pensava e queria, ou quero (só por raiva ou por orgulho), nem
eu mais sei.
João Pedro M. S.
7 de Junho de 2012