de um lado
essa mancha lambe a família
lambe a passagem
lambe minha sombra
minha sede
minha vontade de nadar
a lama lambe
a língua o meu lar
eu desço o
rio como tu rola a ladeira
aqui
varre-se o chão com lama
bebe-se água com choro
bebe-se chuva com ácido
a lama me
expulsa de casa
meus velhos
não suportaram
o esforço
das barbatanas
meus velhos
nem olhos podiam fechar
tivessem
sido fisgados
os girinos
não saíram das poças
eu sou um
peixe solitário
que nada numa
multidão de fuga
nada pra nada
nada pro nada
o espelho
rebate o medo do cardume misto
da insegurança
da fome que nos causou
da fome que vai causar
os pássaros
estão sem espelho
as margens
são meu labirinto que não bifurca
que não desemboca
que não tem começo
sou um
maratonista sem linha de chegada
fugindo de
um rio seco
de um rio azedo
de um rio morto
do outro na
foz quisera eu ter fechado os olhos
o sal deve
arder à vista tanto quanto arde a dor
o ódio a
raiva a fome a pena a tristeza e a sede
nunca morri
sem ter sido pescado e acabo aqui
com o
infinito do mar que nunca quis conhecer
morrendo na
praia
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