segunda-feira, 23 de novembro de 2015

eu sou um peixe bem atrapado

de um lado essa mancha lambe a família
lambe a passagem
lambe minha sombra
    minha sede
    minha vontade de nadar
a lama lambe a língua o meu lar
eu desço o rio como tu rola a ladeira
aqui varre-se o chão com lama
 bebe-se água com choro
 bebe-se chuva com ácido
a lama me expulsa de casa
meus velhos não suportaram
o esforço das barbatanas
meus velhos nem olhos podiam fechar 
tivessem sido fisgados
os girinos não saíram das poças
eu sou um peixe solitário
que nada numa multidão de fuga
nada pra nada
nada pro nada
o espelho rebate o medo do cardume misto
da insegurança
da fome que nos causou
da fome que vai causar
os pássaros estão sem espelho
as margens são meu labirinto que não bifurca
   que não desemboca
   que não tem começo
sou um maratonista sem linha de chegada
fugindo de um rio seco 
  de um rio azedo 
  de um rio morto

do outro na foz quisera eu ter fechado os olhos 
o sal deve arder à vista tanto quanto arde a dor
o ódio a raiva a fome a pena a tristeza e a sede
nunca morri sem ter sido pescado e acabo aqui
com o infinito do mar que nunca quis conhecer
morrendo na praia

Nenhum comentário:

Postar um comentário