sábado, 5 de dezembro de 2015

Nosso mirante

Do nosso mirante eu vejo a gente,
nosso futuro distante, lá longe, pequenininho,
e o horizonte que dessa vez se confunde com mar.

Olho de cima da laje pra minha comunidade.
Quanto menos concreto, mais em casa me sinto.
Mas a laje não é pra todo dia
e o de hoje está nublado feito a minha cabeça.
Nem parece que esse céu já esteve aquele rosa das suas bochechas de quando eu contava uma piada sem graça qualquer.

Será que sente saudade?
Será que ainda tem meus presentes?

Eu ontem ganhei uma flor de dobradura, sabia?
Dei de presente pra mim. Há tanto tempo eu não ganhava nada.
As flores insistem em nós seguir e, caso faltem, tem um parque inteiro do outro lado da rua.

A vista daqui de cima é tão calma.
A voz falhada do segurança que usa sempre a mesma roupa pareceria um grito se ele não fosse mais um xamã do parque.

Esse silêncio é tão bom.
Posso te ouvir como se estivesse aqui.
Mas assim que paro pra responder olho pro lado
e não tem um sorriso me olhando de volta.
Pensei em dormir no meio dos troncos
só pra te visitar por quinze minutos.

Mesmo sozinho me sinto bem acompanhado.
(Deveria escrever sozão, sou uma miniatura daqui.)
Hoje vou abraçar uma árvore
(e acho que indiretamente isso significa um abraço no segurança).

Faltou só a água cair da cachoeira.
Faltaram os patos da lagoa que levam esse nome.

As folhas caídas dançam o silêncio.

As ondinhas da lagoa refletem aquele céu que eu não quero ver, então é melhor olhar pra dentro mesmo.
Só não é agradável assim...

Dessa vez é sozinho mesmo.
Não tem nem uma criança linda,
cujo sorriso fala mais que uma pilha de livro,
pra gente fingir que é nossa.
Mas talvez seja isso mesmo,
fingimos.
Atuamos tão bem.
Atuávamos.
Mas a realidade passou.
Não, na verdade.
A realidade é sempre.
A criança não era nossa,
era emprestada,
e era também cedo pra pensar em qualquer coisa que não nós dois.
Continua meio tarde pra tudo...

Comecei a escrever tardiamente,
a chuva veio me visitar,
mas tem umas árvores me pedindo pra pelo menos terminar isso aqui.

Sabe que eu não quero... Nada que leva teu nome pode ter final.

Então faço das memórias meu presente,
era perfeito,
agora, pretérito.

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