quarta-feira, 1 de abril de 2015

Outra missiva perdida

            Achei nessa semana uma carta de Vinicius para Tom. Já havia lido um trecho antes, mas dessa vez a escutei narrada pelo próprio remetente. Escutei-a como se fosse de Vinicius diretamente a mim.
            Lembrei-me de tantos outros dizeres que meu amado Vininha proferiu. Não recordo-me exatamente das palavras, mas posso dizer que uma das mensagens consistia em dizer que um bom poeta era aquele apaixonado. E não só pela poesia.
Quem melhor do que ele para falar sobre isso depois de nove casamentos?
Penso vez ou outra no que virara o oitavo senão mais um conjunto de palavras bonitas bem organizadas. Ou então nem tão bonitas assim, pelo menos não tomando-as isoladamente.
Ouso comparar-me a ele. Não como poeta, como amante (de qualquer coisa).
Ah... o gostinho de ser amante. O gostinho do perigoso, do incerto – o inseguro. É assim que nascem maior parte das relações a dois que conheço (alguns casos três ou mais). Ah... o gostinho da paciência, enorme exercício praticado como se fosse para as Olimpíadas no dia seguinte. Ah... o gostinho de Vinicius, os meus próprios gostos e o gosto de outra pessoa.
Tenho pensado que, nesses gostos, o sabor que mais se destaca é o de suor – sentido figurado, é claro. Mas que cansaço que dá essa brincadeira toda. Imagino Vina como se sentia, certamente passara por isso mais que nove vezes. Nove foram as que não só devem ter valido o esforço como também foram à exaustão.
E eu cá pensando em cada uma (e cada um, por que não?). Cada um de mim que se estafou. Cada um dos outros que por tudo passam. Cada um dos eu-líricos que choram palavras e sorriem poemas. Cada um dos Vinicius – no plural.
Como poderia pertencer a um só sendo, não só ele, mas todos os homens (incluem-se as mulheres), plural? Necessitava ser de Moraes. Continuo buscando em meu nome um pequeno s que seja, uma desinência qualquer.
Não achei. Será que é esse o motivo de tanta busca?
Não espero encontrar no outro aquilo que não tenho em mim. Só encontro aquilo que procuro e só procuro aquilo que perdi. Ora, se nunca perdi o que não tive o que procuro encontrar?