Vejo no dia a dia tanta reclamação. Não
que elas estejam erradas, mas... não me considero tão desesperançoso do mundo
como maior parte dos adultos. Minha alma é infantil, e como as crianças (e
Rousseau) acredito na bondade do ser humano. Reconheço que chovem
"espertos" por aí, só que experimenta: deixa alguma coisa sua na mesa
de um bar, sai e volta meia hora depois. Se levaram, umas oitenta pessoas boas
passaram antes e com a consciência de que não lhes pertencia, não tocaram naquele
objeto.
Sempre cuidei bem das minhas coisas,
mas não sou exatamente apegado ao material. Se tenho, quero bem conservado. Se
não, tanto faz.
Um tempo atrás o vendedor de churros, que
me via todo dia no ponto de ônibus, passou a vender e eu só pagava na
sexta-feira. Essa semana relembrei com um amigo como emprestar. Um desconhecido
pediu seu violão emprestado. Por que não? Hoje a moça da banca me deu um voto
de confiança. Não tinha dois reais trocados e não valia, para ela, trocar
cinquenta. A Ana, da banca que fica em frente à farmácia em Botafogo, me espera
quando eu puder voltar para dar seus dois reais. Antes dela, um mendigo
orientou-me pelas ruas semelhantes. Nunca vi alguém tão cuidadoso com um
estranho. Aquele é um homem rico, apesar de acender um cigarro na ponta do
outro por não ter os dois reais que eu tinha para comprar um isqueiro na banca
da Ana.
A bondade contagia. Digitei esse texto
no celular, voltando, no ônibus. A meu lado sentou-se uma mulher com criança de
colo dormindo. O ônibus não estava muito cheio, ainda assim me ofereci para
trocar de lugar a fim de que a pequenina pudesse se deitar com mais conforto.
Foi só uma direção, só dois reais, mas
coisas pequenas são maiores que as grandes. Para mim um sorriso vale mais que
um discurso.
29/08/2014
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