quarta-feira, 26 de junho de 2013

Fundaço

Estou há tempo sem escrever, sem tempo, paciência, inspiração. Mas, hoje, saindo da faculdade a caminho do trabalho, peguei um ônibus, 425T, que não costumo pegar.

Ao subir no ônibus, perguntei, por segurança, se a linha iria para a Barra. O motorista acenou com a cabeça, o cobrador e um passageiro foram mais corteses e me explicaram o trajeto detalhadamente.

Com a resposta ratificada, passei o Rio Card e sentei-me bem próximo ao cobrador. - Não que eventos desse me mobilizem tanto, mas talvez por influência de minha formação: Ensino Superior Incompleto: cursando Geografia - Bacharelado, por enquanto; eu fique mais receptivo a episódios particulares que muitas vezes traduzem uma realidade nacional. - Sentei, abri a mochila e de dentro de uma pasta transparente retirei um dos múltiplos textos em preto e branco e prossegui com minha leitura. Ainda na primeira página fui interrompido por um mulato careca, com sotaque nordestino - chutaria sergipano -, língua presa, dentes tortos e amarelados, que trajava uma calça simples e uma camisa de botão azul faltando pelo menos um deles, além de ter sua gravata já folgada e de lado. Esse homem era o cobrador.

O simpático homem disse: "Vai pra Barra.". Novamente agradeci e me pus a ler. Ele, então, cutucou-me no ombro, interrompi imediatamente a leitura para ouvi-lo e surpreendentemente ele me pergunta se sou estudante, respondo que sim, com um largo sorriso e um fundo de orgulho. Ele, tímido, prosseguiu:

"E... tem gente de outros países lá?"

Nesse momento passo a conversar mais abertamente com o senhor. Respondi que sim e ele de pronto perguntou a mim como eles eram, se eles conversavam e onde moravam. Expliquei que eram pessoas normais e fui interrompido com algo como:

"Que língua eles falam?"

Disse a ele que, apesar do sotaque, quase todos falam português fluentemente. Ele perguntou do Canadá, não sei o porquê. Perguntou, também, das aulas e pesquisas, se havia prova ou apenas trabalhos.

Um tempinho depois ele quis saber meu curso, disse Geografia e ele ficou alguns segundos estático. Ele mesmo quebrou o silêncio dizendo:

"Me disseram que a Geografia também trabalha com espaço, um amigo me contou isso, achei muito legal, eu não sabia."

Essa conversa resumida não durou mais que quatro minutos. Com certeza ele tinha mais perguntas que teria feito se tivesse um Ensino Superior. Com cota ou sem cota, esse homem deveria se sentar ao meu lado.

João Pedro M. S.
10/06/2013

Nenhum comentário:

Postar um comentário